domingo, 8 de março de 2015

A FORMAÇÃO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO (2)



1 .    Critérios de Canonicidade

Quando a igreja reuniu-se para formular o Cânon do Novo Testamento ela lançou mão de alguns critérios para reconhecer aqueles livros aos quais Deus havia inspirado. Somente os livros que se enquadraram nestes critérios básicos receberam o reconhecimento pleno da igreja.

1.1.   Apostolicidade.

Para ser reconhecido como inspirado,  a primeira coisa que se requeria, era que o livro fosse escrito por um apóstolo do Senhor ou por alguém diretamente ligado a eles. O livro de Hebreus demorou um pouco a ser reconhecido porque não se sabe ao certo quem tenha sido seu autor.

1.2.   Universalidade.

O livro deveria ser aceito, reconhecido e utilizado pela igreja como um todo. Ou seja,  não foi o concílio que impôs para a igreja quais seriam os seus livros Sagrados (como alguns sugerem),  mas sim a igreja que determinou, e o concílio apenas oficializou quais eram os livros que ela reconhecia como vindos de Deus.

1.3.   Ortodoxia.

O livro deveria concordar com os ensinos apresentados nos demais livros que já haviam sido reconhecidos como inspirados por Deus.  Ou seja,  não poderia haver contradições entre os livros divinamente inspirados.  O livro de Tiago demorou um pouco a ser reconhecido por causa de sua aparente discrepância com os ensinos de Paulo acerca da salvação pela graça.

1.4.   Praticidade.

O livro deveria ter um efeito moral edificante.  Ou seja, deveria ser usado e aceito como um livro rico em ensinos doutrinários e reconhecidamente úteis para a edificação espiritual da igreja.  Este teste também é chamado de “Teste da Inspiração”, pois o livro deveria dar evidências de que era, de fato, inspirado por Deus por meio de sua praticidade.

2.      O Texto do Novo Testamento


Como todas as coisas na vida,  o texto do Novo Testamento também  evoluiu.  Não devemos imaginar que os apóstolos datilografaram suas cartas, e muito menos que usaram a língua portuguesa.   Através de suas sucessivas cópias, o texto Sagrado passou por um desenvolvimento ao longo dos anos, até chegar a forma impressa como se encontra hoje.
Outra coisa que precisamos reconhecer quando estudamos o texto do Novo Testamento é que o texto original, aquele que foi escrito pelos autores divinamente inspirados, não existe mais.  O tempo e a fragilidade dos materiais nos quais foram escritos, encarregou-se de exterminá-los.   O que existem hoje é cópias de cópias, e cópias de cópias de cópias...
O estudo deste desenvolvimento e a busca pelo texto melhor e mais antigo têm crescido e aperfeiçoando-se muito nos últimos anos.   Este interesse crescente em se buscar a proximidade cada vez maior do texto original teve como resultado a existência de duas versões básicas do Novo Testamento,  das quais todas as demais dependem.  O texto  conhecido como  Receptus e o outro conhecido como Texto Crítico.

2.1.   O Texto “receptus

Receptus é uma palavra latina que significa “recebido”.   Este é o nome que foi dado ao primeiro texto grego impresso.   Este texto foi preparado por Erasmo na época da Reforma Protestante do século XVI.   Naquela época havia uma carência muito grande de Bíblias,  e as que haviam eram apenas traduções.  Houve então um interesse cada vez maior para que se tentasse voltar o mais próximo possível ao texto original das Escrituras. 
Erasmo foi então encarregado de preparar um texto grego que mais refletisse o original.  Depois de preparado, este texto tornou-se o padrão para todas as traduções da Bíblia, em qualquer língua,  inclusive da nossa. 
Porém,  este texto apresenta alguns problemas extremamente importantes:
 
1)  Foi baseado em documentos de qualidade inferior. Naquela época Erasmo não tinha acesso a todos os documentos que os estudiosos modernos têm,  pois a maioria destes documentos foi descoberta recentemente. Os textos que ele usou para fazer sua versão não eram os melhores, nem os mais antigos.
2)  Foi um trabalho apressado e mau feito. Os patrocinadores de Erasmo o apressaram para que o seu texto grego ficasse pronto primeiro que outros que estavam sendo preparados.  Erasmo mesmo confessou depois, que, sob pressão,  nas últimas partes do Novo Testamento ele abandonou os manuscritos antigos e  traduziu diretamente do latim  para o grego.

Todas estas coisas fazem do texto de Erasmo um documento de qualidade inferior.

2.2.   O Texto Crítico

Em vista de todos os problemas do texto Receptus,  surgiu o crescente desejo de se preparar um texto de melhor qualidade.  Este desejo se tornou maior com as grandiosas descobertas que foram feitas neste século e no anterior.  Entre estas descobertas estavam preciosas e antiquíssimas cópias gregas do texto do Novo Testamento.  Foi quando surgiu a oportunidade e a ocasião de se preparar o Texto Crítico do Novo Testamento Grego.  Este texto é um resultado de um trabalho comparativo sério, de vários estudiosos,  entre os vários manuscritos gregos (cerca de 4.000) e documentos importantes (cerca de 4.000) do Novo Testamento.  A conclusão deste trabalho foi a colocação de alguns colchetes (“[...]”)  em nossas Bíblias modernas.  Os textos que estão entre colchetes nas Bíblias modernas não fazem parte do Texto Crítico.
Na preparação do Texto Crítico, os estudiosos usaram critérios extremamente complexos para determinar quais seriam os textos mais confiáveis, e que, portanto, estivessem mais próximos do original ou autógrafo.   Porém, simplificando estes critérios, os textos foram considerados na seguinte ordem:

1)  Os manuscritos gregos - eram escritos a mão livre,  geralmente em papiros 
a) Os Unciais - eram escritos em maiúsculos e sem separação de palavras;
b) Os cursivos - eram minúsculas, com letras emendadas e com separação de palavras;
c) Os Códex - eram pergaminhos reunidos em forma de livro.
2)  Os Lecionários gregos  - eram porções do Novo Testamento, preparado para o uso no culto público,  geralmente contendo comentários acerca do mesmo.
3)  As Versões antigas  -  eram traduções do N.T. grego para outras línguas,  geralmente para o siríaco , egípcio ou cóptico.
4)  A literatura patrística  -  eram citações bíblicas que os pais da igreja primitiva faziam em sua cartas e demais documentos.

Além deste critério, o qual trata basicamente da idade dos documentos  (quanto mais antigos, mais confiáveis),  existem outros critérios que tratam da fonte do documento, ou seja, quem o produziu, pois dependendo desta fonte, mesmo que ele seja antigo, não pode ser considerado confiável.

Hoje, os estudiosos do texto do Novo Testamento contam com 3.166 manuscritos gregos;  2.143 lecionários;  e cerca de 9.300 versões antigas;  além de inúmeras citações bíblicas feitas pelos pais da igreja.

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