sábado, 7 de março de 2015

A FORMAÇÃO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO (1)

É importante, para nós cristãos, antes de estudarmos o NT, saber como ele surgiu e quais os caminhos que percorreu até tornar-se a nossa principal fonte de autoridade. Principalmente para os evangélicos, é de suma importância saber explicar porque em nossas Bíblias não constam os sete livros e demais acréscimos que aparecem nas versões católicas.


1.      O Cânon

A palavra “cânon” significava inicialmente “vara de medir”.  Por metáfora, com o tempo, veio a significar “padrão”.   Aplicado ao Novo Testamento, Cânon, significa a lista dos livros aceitos pela igreja primitiva como divinamente inspirados por Deus, e, portanto, autoritativos no que diz respeito à crença e a conduta cristã.

2.      O Desenvolvimento do Cânon do Novo Testamento


2.1.   O Período Primitivo

A Bíblia dos Cristãos primitivos eram as Escrituras do Antigo Testamento.  Era nela que eles buscavam orientação para a vida e apoio para suas crenças.  Além do Antigo Testamento, os cristãos primitivos contavam com um conjunto de tradições orais[1] dos atos e ensinamentos de Jesus e de revelações diretas da parte de Deus, por meio dos profetas cristãos. 
Quando os apóstolos escreveram suas cartas, não tiveram a intenção de confeccionar um novo livro sagrado, mas sim de fornecer soluções práticas aos problemas existentes naquelas igrejas ou grupos aos quais as cartas eram endereçadas, e foi principalmente no Antigo Testamento que eles buscaram apoio para suas afirmações e ensinos.   Porém, as igrejas que receberam estas cartas as guardaram com muito apreço e máximo cuidado, deixando-as como um tesouro precioso aos seus sucessores, pois compreendiam que eles eram os autênticos portadores da mensagem divina que lhes fora entregue pelo próprio Filho de Deus.  Em pouco tempo, principalmente as cartas de Paulo, estavam sendo copiadas e circulando entre as igrejas que ele fundara. 
Com a expansão e crescimento do Cristianismo, surgiu também a necessidade de registrar em forma escrita os atos e ensinamentos do Mestre, que até então só existia em forma oral.  Com isto, surgiram os Evangelhos, os quais também foram prontamente aceitos e utilizados pela cristandade primitiva.
O livro de Atos também foi reconhecido, pois narrava as atividades de Paulo (o apóstolo aos gentios) e dos demais apóstolos.

2.2.   Do Período Primitivo até 120 d.c.

Neste período temos o testemunho de alguns dos primitivos pais da igreja[2], como Clemente de Roma, Inácio, Policarpo e Barnabé. Clemente foi o terceiro pastor da igreja de Roma e sua principal obra foi a “Epístola de Clemente aos Coríntios, escrita por volta do ano 95 d.C.  Muitas passagens dos livros canônicos do Novo Testamento são retratadas nesta epístola, entre elas I Coríntios, Mateus, Lucas, Hebreus, Romanos, I Timóteo, Tito, I Pedro e Efésios”. Inácio, bispo de Antioquia, também escreveu algumas epístolas e, nestas, ele citou os livros de Mateus, I Pedro e  I João.  Inácio foi discípulo de Policarpo, que por sua vez fora discípulo do apóstolo João.

2.3.   De 120 a 170 d.c.

             Este período é conhecido pelas controvérsias entre cristãos e não cristãos, o que, por sua vez,        gerou grande quantidade de apologias[3].   Dentre os apologistas mais famosos destacam-se                Justino Mártir, Aristides,  Melito de Sardes e Teófilo de Antioquia.  Dentre estes, Justino Mártir          figura como o mais ilustre de todos.
Em uma de suas apologias Justino diz que naquela época os Evangelhos já eram lidos aos domingos nas igrejas, juntamente com as profecias.  Isto demonstra que já eram vistos como canônicos.  Além disto,  mencionou o Apocalipse e demonstrou que conhecia Atos, seis epístolas de Paulo, Hebreus e I João.  Pouco tempo depois Taciano, que era discípulo de Justino, fez uma Harmonia dos quatro evangelhos, conhecida como  “Diatessaron”. 
Nesta época, os gnósticos proclamavam que Jesus tinha revelado verdades esotéricas a certos apóstolos, e que este conhecimento secreto lhes havia sido transmitido.  Marcião,  um deles,  para manter a sua doutrina,  formulou o seu próprio Cânon,  incluindo aqueles livros que apoiavam os seus ensinos e rejeitando aqueles que contradiziam-no.    Diante disto os cristãos sentiam a necessidade de definirem quais livros eram, de fato,  autoritativos.

2.4.   De 170 a 220 d.c.

Nesta época foi produzida uma volumosa literatura sobre teologia, heresia, credo e sobre os livros canônicos do Novo Testamento.  Entre os mais destacados deste período estão Irineu da Ásia Menor, Clemente de Alexandria e Tertuliano da África.
Durante este tempo a ideia de Cânon já era universalmente aceita entre todos os cristãos.  O problema principal consistia em determinar quais dos livros que circulavam na época comporiam este Cânon. A divergência era principalmente entre as igrejas do oriente e as do ocidente.
Irineu usou os quatro evangelhos,  Atos,  as epístolas de Paulo,  várias epístolas gerais e o Apocalipse. Para ele estes livros eram Escrituras Sagradas no nível do Antigo Testamento.
No final do segundo século não havia mais dúvida em nenhum cristão, de qualquer grupo,  sobre a canonicidade  dos quatro evangelhos e das epístolas de Paulo. O título “O Novo Testamento”, foi usado pela primeira vez por um escritor desconhecido, em cerca de 193 d.C.
É desta época o “Fragmento Muratoriano”, descoberto em 1870 pelo bibliotecário de Milão, chamado Muratori.  Este documento trata do Cânon do Novo Testamento e menciona todos os livro, exceto Hebreus, I Pedro, II Pedro e Tiago.

2.5.   De 220 a 400 d.C.

No terceiro século, Orígenes foi o personagem que mais se destacou no cenário cristão.  Ele nasceu em Alexandria no ano de 185 e morreu em 254.  Orígenes aceitou como autoritativos também o Apocalipse, Hebreus e Judas, revelando, porém alguma dúvida sobre Tiago, II Pedro, II e III João. Nesta época já eram universalmente aceitos como inspirados as epístolas de I Pedro e I João.
Na primeira parte do quarto século a perseguição contra os cristãos intensificou-se e muitos exemplares das Escrituras Sagradas foram caçados e queimados. Diante disto tornou-se extremamente imprescindível saber quais eram os livros pelos quais se poderia sacrificar a vida.  Durante este tempo, Eusébio, historiador da igreja,  preparou uma lista dos livros que ele considerava canônicos e que a igreja já havia reconhecido como tal.  Nesta lista estão incluídos os quatro evangelhos, as epístolas de Paulo, Atos e Hebreus. Ele cita como não universalmente reconhecidos Tiago, Judas, II Pedro, II João e III João.  Deve ser ressaltado, que em nenhum momento, toda a igreja rejeitou como inspirado qualquer destes livros, mas ocorreram apenas dúvidas de um ou outro grupo dela. 
No final do quarto século Atanásio, conhecido como “Campeão da Ortodoxia”[4],  em uma de suas epístolas pastorais mencionou todos os 27 livros do nosso Novo Testamento e disse:

São estas as fontes de salvação para que todos aqueles que tenham sede possam satisfazer-se com os preceitos nelas contidos.  Ninguém adicione ou tire destes livros coisa alguma”. 

Em 390, Gregório de Nazianzo também publicou a sua lista, omitindo desta,  apenas o livro de Apocalipse. Finalmente no Concílio de Cartago, realizado em 397,  a igreja definiu, de uma vez por todas o seu Cânon.  Naquele concílio foram aceitos como inspirados por Deus todos os 27 livros do nosso Novo Testamento,  sendo decretado que:

... fora das Escrituras canônicas, nenhum outro livro deve ser lido nas igrejas como Escritura Divina”.

Entretanto, deve ser ressaltado que a igreja ou o concílio não decretaram a canonização de qualquer livro, eles apenas reconheceram aqueles que Deus já havia inspirado. Quando Jerônimo publicou a Vulgata, incluindo nela apenas os 27 livros inspirados, cessou definitivamente a questão do Cânon do Novo Testamento.
Porém, em tudo isto que foi demonstrado, devemos ver não apenas o destino seco da História, mas principalmente a orientação e direção sábia e consciente daquele que é o verdadeiro autor do Novo Testamento,  Deus.




[1] Tradição oral - que é memorizada e transmitida de geração para geração utilizando
somente a fala. 
[2] Pais da igreja  -  é como são geralmente chamados os líderes e mestres da igreja logo depois da
    época dos Apóstolos. 
[3] Apologia  -  é uma defesa do Evangelho diante daqueles que lhe são contrários.
[4] Ortodoxia  -  é a doutrina correta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário