segunda-feira, 9 de março de 2015

A Doutrina da Aplicação da Redenção (1)

A Doutrina da Aplicação da Redenção

A. Introdução e definição

Quando Adão e Eva pecaram, tornaram-se merecedores de punição e separação eternas da parte de Deus (Gn 2.17). Do mesmo modo, quando seres humanos hoje pecam tornam-se sujeitos à ira de Deus e à punição eterna: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Isso significa que uma vez que as pessoas pequem, a justiça de Deus só pode requerer que sejam eternamente separadas dele, impedidas totalmente de experimentar qualquer benefício de sua parte, e que vivam para sempre no inferno apenas recebendo eternamente sua ira. Deveras, foi isso que aconteceu aos anjos que pecaram, e o que merecidamente poderia ter ocorrido a nós também: “... Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo” (2Pe 2.4).


B. Exemplos de graça comum

Se olharmos para o mundo ao nosso redor e o compararmos com o fogo do inferno que ele merece, vemos evidências abundantes da graça comum de Deus em milhares de exemplos na vida diária. Podemos distinguir as diversas categorias específicas nas quais esta graça comum é vista.

1. O domínio físico.

Os incrédulos continuam a viver neste mundo unicamente por causa da graça comum de Deus – toda vez que alguém respira, isso se dá pela graça, porque o salário do pecado é morte, não vida. Além disso, a terra não produz somente cardos e abrolhos (Gn 3.18), nem permanece como um deserto ressecado, mas pela graça comum de Deus ela produz alimento e material para roupa e abrigo, freqüentemente em grande abundância e diversidade. Jesus disse: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos de vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5.44-45).

2. O domínio intelectual.

Satanás é “mentiroso e pai da mentira” e “nele não há verdade” (Jo 8.44), porque ele é completamente inclinado para o mal, para a irracionalidade e a para perpetração da falsidade que acompanha o mal extremo. Mas os seres humanos no mundo atual, mesmo incrédulos, não são totalmente inclinados para a mentira, para a irracionalidade e para a ignorância. Todas as pessoas conseguem compreender alguma medida da verdade; certamente alguns têm grande inteligência e entendimento.

3. O domínio moral.

Deus também, por meio da graça comum, limita as pessoas para que não sejam tão más quanto poderiam ser. Mais uma vez o domínio demoníaco, totalmente devotado ao mal e à destruição, proporciona um claro contraste com a sociedade humana, na qual o mal é claramente controlado. Se as pessoas persistem cruel e repetidamente em aderir demais ao pecado no decorrer do tempo, Deus finalmente “os entregará” ao maior de todos os pecados (cf. Sl 81.12, Rm 1.24, 26, 28), mas no caso da maioria dos seres humanos eles não caem até as profundezas onde seu pecado os levaria porque Deus intervém e põe freios sobre sua conduta. Uma das mais eficazes restrições é a força da consciência.

4. O domínio criativo.

Deus tem permitido medidas significativas de talento nas áreas artísticas e musicais, bem como em outras esferas nas quais a criatividade e o talento podem ser expressos, tais como atividades atléticas, arte culinária, literatura e assim por diante. Além disso, Deus nos dá capacidade para apreciar a beleza em muitas facetas da vida. E nessa área, bem como nos domínios físico e intelectual, as bênçãos da graça comum são às vezes derramadas sobre os incrédulos até mais abundantemente do que sobre os crentes. Contudo, em todos os casos é o resultado da graça de Deus.

5. O domínio social.

A graça de Deus também é evidente na existência de várias organizações e estruturas na sociedade humana. Vemos isso primeiramente na família humana, atestada pelo fato de que Adão e Eva permaneceram como marido e mulher depois da queda e então tiveram descendentes, tanto filhos como filhas (Gn 5.4). Os filhos de Adão e Eva se casaram e formaram suas próprias famílias (Gn 4.17, 19, 16). A família humana perdura hoje não simplesmente como uma instituição para crentes, mas para todas as pessoas.

6. O domínio religioso.

Até mesmo no domínio da religião humana, a graça comum de Deus produz algumas bênçãos para pessoas incrédulas. Jesus nos ordena: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44). Visto que no contexto não há restrição para orar apenas pela salvação deles, e visto que a ordem de orar por nossos perseguidores está ligada a um mandamento para amá-los, parece razoável concluir que Deus tem a intenção de responder às nossas orações – mesmo aquelas pelos nossos perseguidores – com relação a muitas áreas da vida. De fato, Paulo ordena especificamente que oremos “em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade” (1Tm 2.1-2). Quando visamos o bem dos incrédulos, isso está em harmonia com a prática do próprio Deus de conceder luz solar e chuva “sobre justos e injustos” (Mt 5.45) e também se harmoniza com a prática de Jesus durante seu ministério terrestre, quando ele curou todas as pessoas que eram levadas até ele (Lc 4.40). Não há indicação de que ele exigisse que elas acreditassem nele ou concordassem que ele era o Messias antes de lhes conceder a cura física.

7. A graça comum e a graça especial influenciam-se mutuamente.

A graça comum, naturalmente, influencia e enriquece a igreja, visto que à parte da graça comum de Deus concedida aos carpinteiros e a outras espécies de profissionais, não haveria construção de igrejas; à parte da graça comum de Deus concedida aos impressores, compositores tipográficos e encadernadores (e também aqueles que trabalham nas fábricas de papel ou que cortam árvores das florestas para fazer o papel), não haveria Bíblias. Nas incontáveis peculiaridades das atividades cotidianas, a igreja se beneficia da graça comum.

8. A graça comum não salva as pessoas.

Apesar disso tudo, devemos compreender que a graça comum é diferente da graça salvífica. A graça comum não transforma o coração humano nem conduz as pessoas ao genuíno arrependimento e à fé – ela não pode salvar e, sendo assim, não as salva (embora na esfera intelectual e moral ela possa fornecer alguma preparação que torna as pessoas mais inclinadas a aceitar o evangelho). A graça comum reprime o pecado, mas não muda em medida alguma a disposição fundamental de alguém, nem purifica a natureza humana decaída. 

C. Razões da graça comum

Por que é que Deus concede a graça comum aos pecadores indignos que nunca alcançarão a salvação? Podemos sugerir, no mínimo, quatro razões:

1. Para redimir os que serão salvos.

Pedro diz que o dia do juízo e da execução final da punição está sendo adiado porque há ainda mais pessoas que serão salvas: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento. Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor” (2Pe 3.9-10). De fato, essa razão é verdadeira desde o começo da história humana, porque se Deus quisesse salvar qualquer pessoa fora de toda massa da humanidade pecaminosa, ele não poderia destruir todos os pecadores imediatamente (porque nesse caso não haveria raça humana restante).

2. Para demonstrar a bondade e a misericórdia de Deus.

A bondade e a misericórdia de Deus não são apenas percebidas na salvação dos crentes, mas também nas bênçãos que ele concede aos pecadores indignos. Quando Deus “é benigno até com os ingratos e maus” (Lc 6.35), sua benignidade é revelada no universo, para sua glória. Davi diz: “O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Sl 145.9). Por isso é que lemos sobre Jesus falando com o jovem rico: “E Jesus, fitando-o, o amou” (Mc 10.21), ainda que o homem fosse um incrédulo e que, num momento, desviar-se-ia de Jesus por causa de suas grandes posses.

3. Para demonstrar a justiça de Deus.

Quando Deus repetidamente convida os pecadores a que se acheguem à fé, e quando eles repetidamente recusam seu convite, a justiça de Deus ao condená-los é percebida muito mais claramente. Paulo adverte que aqueles que persistem na incredulidade estão simplesmente acumulando mais ira para si mesmos: “Segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Rm 2.5). No dia do juízo “toda boca” será “calada” (Rm 3.19) e ninguém será capaz de objetar que Deus seja injusto.

4. Para demonstrar a glória de Deus.

Por último, a glória de Deus é demonstrada de muitas maneiras através das atividades dos seres humanos em todas as áreas na quais a graça comum atua. Ao desenvolver e exercitar o domínio sobre a terra, homens e mulheres demonstram e refletem a sabedoria de seu Criador, demonstram qualidades semelhantes às de Deus como perícia, virtude moral, autoridade sobre o universo e assim por diante. Embora todas essas atividades sejam maculadas por razões pecaminosas, assim mesmo refletem a excelência do nosso Criador, e portanto trazem glória a Deus, não total ou perfeitamente, mas de modo expressivo.

D. Nossa resposta à doutrina da graça comum

Ao pensar sobre os vários tipos de bondade percebidos na vida dos incrédulos por causa da abundante graça comum de Deus, devemos manter em mente três pontos:

1. A graça comum não significa que aqueles que a recebem serão salvos.

Nem mesmo o fato de receber porções excepcionalmente amplas da graça comum significa que aqueles que a recebem serão salvos. Até mesmo as pessoas mais habilidosas, mais inteligentes, mais abastadas e poderosas do mundo precisam do evangelho de Jesus Cristo ou serão condenadas por toda a eternidade! Mesmo entre nossos vizinhos, os de moral mais elevada e os mais bondosos ainda necessitam do evangelho de Jesus Cristo, ou serão condenados pela eternidade! Eles externamente podem dar a impressão de não ter necessidade, mas as Escrituras ainda assim dizem que os incrédulos são “inimigos” de Deus (Rm 5.10; cf. Cl 1.21; Tg 4.4) e são “contra” Cristo (Mt 12.30). Eles “são inimigos da cruz de Cristo”, “só se preocupam com as coisas terrenas” (Fp 3.18-19) e são “por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Ef 2.3).

2. Devemos ser cautelosos para não rejeitar as coisas boas que os incrédulos fazem como se fossem totalmente más.

Pela graça comum, os incrédulos fazem o bem até certo ponto, e devemos enxergar a mão de Deus nisso e ser gratos pela graça comum que de certo modo opera em toda amizade, todo ato de bondade, e por todas as maneiras pelas quais ela traz bênçãos a outros. Tudo isso, no final das contas – embora o incrédulo não o saiba – provém de Deus e, também por isso, ele merece ser glorificado.

3. A doutrina da graça comum deve conduzir nosso coração a uma extrema gratidão a Deus.


Quando passeamos pela rua e observamos casas e jardins, e famílias morando em segurança, ou quando fazemos negócios no mercado e percebemos os abundantes resultados do progresso tecnológico, ou quando andamos através das florestas e vemos a formosura da natureza, ou quando somos protegidos pelo governo, ou quando recebemos a educação com o vasto tesouro do conhecimento humano, devemos perceber, no final das contas, que Deus em sua soberania é o responsável não apenas por todas essas bênçãos, mas também que ele as tem concedido a pecadores totalmente indignos de sequer uma delas! 

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